sexta-feira, 8 de julho de 2011

Um homem completo

Descobri, estarrecido, dias atrás, que minha mãe é um homem completo! Ela mesma chegou a essa conclusão em minha presença, após escutar de mim a narrativa de um acontecimento que me sucedeu poucas semanas antes. Após um farto almoço na agradável presença de familiares de minha esposa, fim-de-semana desses, alguém decidiu colocar na roda, para me provocar, a cobrança sobre quando é que, afinal de contas, vamos ter um filho. Porque, mais afinal de contas ainda, depois de ter casado na igreja e no civil cumprindo todos os rituais esperados, e já se assentando nessa idade em que o milharal de cabelos brancos começa a tomar conta da horta capilar, é de se esperar de um sujeito decente e observador dos bons costumes que ele venha a providenciar, sem mais delongas, a encomenda de um herdeiro, para júbilo e gáudio de toda a família e também, subliminarmente, para extirpar pela raiz o fermentar de desconfianças de que ele não dê no coro ou não tenha competência para dar cabo a um projeto dessa natureza, que não exige nada mais do que dedicar-se com afinco às obrigações matrimoniais previstas em lei e mesmo nas antigas escrituras.
A flauta e a cobrança corriam soltas entremeadas pela sucessão de respostinhas espirituosas e engraçadinhas às quais me dedico quando o assunto recorrente retorna à baila, para a delícia dos familiares-cobradores, quando alguém se saiu com aquela máxima de que, segundo as palavras do próprio, “para ser um homem completo, é preciso ter plantado uma árvore, ter escrito um livro e ter tido um filho”. Grande sacada espirituosa do dito familiar, que logo foi aplaudida e reforçada por todos os presentes, todos eles, por sinal, já desobrigados das tarefas de povoar e Terra com suas sementes, tanto as fisiológicas que lhes geraram descendentes quanto as vegetais que lhes resultaram em dadivosas árvores frutíferas em seus respectivos pomares. A algazarra só cessou no momento em que perguntei a todos os alegres e flauteiros presentes os títulos dos livros que, bem sei, nenhum deles até hoje escreveu. O silêncio e o risinho constrangido que baixou na sala trouxe cada um deles para dentro da minha até então solitária nau dos homens incompletos.
Livro, pelo menos, já fiz, e, pelo que me lembre, na adolescência, plantei um pé de chuchu no quintal de casa que floresceu e rendeu uma ou duas saladas, e acho que vale como ação para cumprir uma das premissas da formação do homem completo. Minha mãe, que já plantou árvores, escreveu livros e teve dois filhos, é o homem mais completo que eu conheço, a julgar por esse viés tão popular quanto discutível. Mas a rapidez de raciocínio, tão fundamental para vir em socorro da saia justa na hora da flauta, só é concedida pelo cultivo não de árvores ou de rebentos, e sim pela dedicação à leitura. Fica como uma das primeiras lições de sua vida, ó meu futuro filho...
(Crônica publicada no jornal Informante, de Farroupilha, em 8 de julho de 2011)

5 comentários:

Le Vin au Blog disse...

Tá, mas e aí, para quando é o herdeiro?

Anônimo disse...

..vai dizer que, depois dessas, tu não sai da mesa sendo considerado "o chatão" da casa? É sempre assim quando o cala arruma uma forma de fazer a turma calar a boca heheheh.

Tri espirituosa tua escapada, principalmente porque tem cacife para isso. A turma, normalmente, não é capaz sequer de escrever um cartão de aniversário, nem virtual.

Tem alguns aspirantes a sábios que já preferiram mudar um pouco o legado: planta uma árvore, escreve um livro, constrói uma casa. Ajuda bastante, MUITO, nessas horas, especialmente porque, hoje em dia, o pessoal não sabe mais nem construir casinha de 'LEGO', ou uma proteção contra a geada para o Totó.

Tô precisando escrever um livro...
:-]


J.Cataclism

marcos fernando kirst disse...

Pois é, Rafaela,... vai que o herdeiro vem um dia desses....

marcos fernando kirst disse...

Isso, cataclism.... escreve um livro sobre as árvores que plantaste e os herdeiros que produziste..... o tema nao é original, mas pelo menos encerra a fatura... hehehe

SandmanIsHere disse...

Sem dúvida a rapidez de raciocínio foi primordial para fazer a flauta notória ser engolida rsrsrs fiquei divagando: seria tão menos chato e previsível se se instaurasse assuntos como "qual o título do seu mais novo livro adquirido?" ou então "vc viu como eu aprendi a cuidar bem daquela edição antiga do Cervantes?", mas não... segue sempre a mesma ladainha de "como está crescido seu filho", "oh, como é mesmo o nome dele?".

Nada contra a filhos, mas tudo a favor dos livros...rsrs