sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Eu sou bárbaro


Minha mulher se impôs uma missão árdua desde que leu a crônica em que eu discorria sobre a questão da gentileza. Convencida de que ando usando este espaço para dar moral de ceroulas, agora quer me ensinar alguns conceitos básicos de etiqueta que norteiam a atuação em sociedade de um casal. Ela crê que eu tenho conserto, que aprenderei, e está empenhada nas lições. Coitada. E de mim também, que tento decorar as regras e comprometi-me a colocá-las em prática sempre que saímos juntos. Sou um veículo em treinamento, portanto.
Primeira lição: lembrar de sempre entrar na frente dela em lugares públicos, como restaurantes, recepções, vernissages, ambientes lotados em geral. Sim, porque cabe ao homem dar a primeira pisada na área, farejar possíveis perigos, eliminar obstáculos, detectar o melhor lugar para sentar ou identificar o grupo formado pelo menor número de chatos. O homem educado, o cavalheiro gentil e atencioso, não faz igual a mim (ou igual ao meu antigo eu, o bárbaro), que empurra a mulher porta adentro como se a estivesse rifando aos olhares da turba presente. Isso é errado. Feio. Grotesco. Aprendi, pelo menos, já na teoria.
Lição dois: lembrar de sempre deixar a companheira sair na frente do mesmo ambiente. Cabe a você resguardá-la. Todos os olhares devem ferir as suas costas, e não as dela. É você quem deve receber as punhaladas psíquicas na hora da retirada. Ela, não; ela deve ser protegida por você como um escudo na entrada e outro na retirada. Seja um escudo. O mesmo vale na hora de subir e descer escadas, ensina-me ela: ao subir, fique atrás, para apará-la caso ela se desequilibre no salto e role escada abaixo, seja a escada rolante ou não. Ao descer, fique na frente dela, pela mesmíssima razão, seu ogro.
Aliás, depois da retirada bem feita, obedecendo a todas as regras, cuide para não colocar tudo por terra disparando na frente dela rumo ao carro, entrando, ligando o motor e já arrancando quando ela recém chegou e ainda tem um pé apoiado na calçada. Domestique o viking que habita o seu ser e aprenda a cuidar melhor delas. Elas saberão valorizar. Juro que estou tentando. Grof...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro, em 03/09/2010)

Um comentário:

Le Vin au Blog disse...

A Sil tem toda razão. Ela já te ensinou também como andar com uma dama na rua?
Beijos da beira do Mediterrâneo
Rafa