domingo, 26 de setembro de 2010

Lance de mestre


Por volta dos 10 anos de idade, tomei a decisão de que deveria fazer algo para ficar inteligente. Burro como era, não tinha a menor ideia de que caminho trilhar para atingir meu objetivo. Compungido, meu avô prontificou-se a me ensinar a jogar xadrez, passatempo revestido por uma aura de intelectualidade profunda, conhecido como “o rei dos jogos e o jogo dos reis”, praticado por gente inteligente. Topei, aliciado pela promessa de poder saborear um refrigerante ao final de cada partida semanal, na casa do avô. Espertinho, ao menos, eu já era.
Após ensinar-me os movimentos das pedras (que era como chamávamos as peças, objetos palpáveis torneados em madeira, as bases revestidas com feltro, dispostas sobre um tabuleiro pesado, diferentemente das versões virtuais que hoje habitam as entranhas dos computadores), meu avô deu início a um torneio particular comigo que durou uns dois anos. De saída, prometeu-me que, quando eu conquistasse a minha primeira vitória sobre ele, eu receberia de presente um conjunto de peças e tabuleiro igual ao dele. Nham! Aquilo, sim, me motivou. Inteligente, meu avô.
Mas não éramos grandes jogadores. Mexíamos as peças, porém, nossa criatividade estratégica era limitada. Logo um aprendeu o estilo e as manhas do outro, e jogávamos sobre o eventual erro do adversário. Minhas notas em química e matemática não melhoraram muito a partir daquilo. Não me parecia que estivesse ficando mais inteligente.
Certa terça-feira, venci pela primeira vez. Já no final de semana seguinte, ganhei meu prometido conjunto composto por tabuleiro e caixa com elegantes peças de madeira. Havia esquecido da promessa do avô, mas ele não. Desde o início, ele jogara comigo sem me dar chances: “Já sabes as regras. Jogue por si”, dizia. No final das contas, a inteligência extrapolava o cenário da batalha no tabuleiro e habitava a essência dos nossos encontros, pois foi por meio de um ato inteligente mútuo que um avô estabeleceu um elo perene com um neto. Não melhorei minhas notas em matemática, mas aprendi que atos singelos têm potencial para gestar metáforas de vida que vão muito além de um xeque-mate.

(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 24/09/2010)

Um comentário:

silvana disse...

Oi querido!
Muito legal a sintonia entre o clima do texto e da imagem

Beijos
Sil