sexta-feira, 4 de maio de 2012

O dedo-duro


Realmente, estou começando a ficar démodé. Démodé, é bom explicar, é um termo que se usa para designar coisas que estão fora de moda, arcaicas, assim como o uso de expressões tipo “démodé” e “arcaicas”. A gente vai se tornando démodé não só pelo passar dos anos, que vão estalando laçaços cada vez mais fortes nas nossas costas, mas especialmente por não conseguir mais acompanhar com a mesma destreza de outrora (biip... detector de termo démodé em ação) a absorção de novos babados (biip) comportamentais.
Percebo isso no gestual. Em tempos passados, era muito maneiro (biip) fazer gestos como “positivo” (punho fechado, polegar para cima, balançando um pouquinho), “paz e amor” (mão fechada, dedos indicador e médio rijos e ao alto, separados, em forma de “V”) ou “ok” (dedos indicador e polegar unidos pelas pontas fazendo um círculo, com o resto da dedaiada lá atrás aberta em leque de pavão) para comunicar de longe que tudo estava bem, obrigado (uma perigosa inclinação de ângulo do sinal de “ok” deturpa tudo e passa a indicar exatamente o contrário, como bem sabe quem já o usou contra algum desafeto, sendo aconselhável, após o uso, esquecer os dedos e colocar as pernas para correr).
Hoje em dia, esses gestos todos estão meio esquecidos, relegados (biip) ao passado, abrindo caminho para o surgimento de símbolos criados pelas novas gerações, aos quais sofro para me adaptar. Não consigo, por exemplo, de forma alguma, produzir aquele coraçãozinho que se faz hoje em dia com as duas mãos unidas em forma de concha - os polegares se tocando embaixo - para demonstrar carinho por alguém. Tento, tento, mas o máximo que consigo produzir embaralhando os punhos é o formato de meu fígado ou, quando muito, o baço. Tentei fazer esse sinal manual noite dessas, quando minha esposa chegou do trabalho, e ela largou-se no sofá, acometida por um acesso de riso.
Dia seguinte, passei parte da tarde treinando o gesto. Quando fui testar exibindo-o ao gato, ele correu eriçado e passou horas escondido embaixo do mesmo sofá. Não adianta, não consigo evoluir do simples e singelo “paz e amor”. Aquilo, sim, é do balacobaco (biiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiip)...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 4 de maio de 2012)

3 comentários:

J.Cataclism disse...

Hahahahahaha excelente!
Quantas vezes precisaste editar o texto para evitar que o "biiiiiiiiiiiiiiiiip" tomasse conta tal qual numa música de rap norteamericano? Heheheh

Muito bom o texto! Não posso pensar o contrário, já que uso direto o "V" de outrora e o "OK pavão" pra mostrar que entendi todos babados.

Mas foi muita coragem a tua em tentar aquela porcaria do "coraçãozinho". Afinal, por que achas que o Pê-Lanza ("banda" restart) levou uma Pê-Drada há algumas semanas? Deve tê-lo feito em formato errado heheheh.

marcos fernando kirst disse...

Heheh... "OK pavão" de fato é uma forma mais inteligente de designar o gesto.... Já os biiip, te digo... nao foi facil evita-los.....

Le Vin au Blog disse...

Eu quase morri de rir por aqui! :)