sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Quase um poliglota

Aos poucos, com a convivência, a vivência e muita polenta, eu vou aprendendo mais e mais sobre os costumes e a cultura dos descendentes dos antigos colonizadores dessas plagas serranas que adotei como lar e que tão bem me acolhem há quase 22 anos. Os habitantes de Uvanova, aquela pequena cidadezinha encravada no alto da Serra, vizinha a Tapariu e a Vila Faconda, ficam sempre alegremente impressionados quando me flagram disparando alguma palavra, algum termo ou uma frase quase inteira em “talian”.
As primeiras que aprendi, confesso, foram aquelas relacionadas ao ato de comer (“mangiare”), beber (“bever”), encher a pança, e seus derivados, como alguns pratos e produtos (formaggio, vin, capeletti, vin, sucheta, vin, mandolato, vin, pomodoro, vin...). O que não é de se espantar, pois, precavido como sou, sei de longa data pronunciar a palavra “comer” em dezenas de línguas, pois nunca se sabe o que pode nos acontecer nesse louco mundo em que vivemos, com aviões a caírem por todas as partes do planeta o tempo todo. Assim, se eu despencar na Alemanha, não passarei fome dizendo “essen”; na Inglaterra, “eat”; na França, “manger”; na Holanda, “eten”; na China... bom, na China tenho receio de sair comendo qualquer coisa que me servirem; na Rússia, “yest”; em Uvanova, “demo via mangiare presto”; em Miami... em Miami prefiro não comer nada; em Marte (sim, porque andam querendo levar o sinal do BBB até para Marte), é preciso usar de mímica, o que exige saber imitar três bocas sendo alimentadas por dois pares de antenas, o que é um pouco complicado, mas tenho treinado bastante.
Dia desses, no interior de Uvanova, fazendo uma pesquisa que resultou em livro em parceria com o artista plástico Antonio Giacomin, a ser lançado em abril, aprendi o significado da palavra “slita”, artefato similar a um trenó de madeira puxado por uma junta de bois, usado pelos nativos para transportar pedras para a construção de taipas. Afáveis, alguns uvanovenses aprontaram uma slita numa junta de bois para que tirássemos fotos do engenho em ação. Passamos uma manhã toda naquela coisa de slita para cima, slita para baixo, bois para cá, bois para lá, fotografa daqui, de lá, de acolá. Só depois de termos retornado a Caxias é que percebemos que ninguém tivera a brilhante ideia de entulhar de pedras a dita slita, que foi o tempo todo fotografada vazia.
Daí aprendi o significado da palavra “baúcos”...

 (Crônica publicada no jornal Pioneiro em 14 de fevereiro de 2014)

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