quinta-feira, 8 de maio de 2014

A invasão bárbara

Precisamos resistir ao avanço da barbárie. Ela se manifesta de muitas e variadas formas, o que exige estarmos permanentemente atentos a seus movimentos. A melhor (e única) arma capaz de deter seu avanço, combatê-la e mesmo eliminá-la, é a civilidade. Civilização é antônimo de barbárie.
A barbárie só viceja e só se alastra sobre terreno destemperado de civilização. Se semearmos civilidade, estaremos criando escudos naturais contra a barbárie. A fórmula é simples, mas executá-la na prática é muito complicado. Requer esforço e envolvimento. Requer desejo de resistir. Exige que adotemos essa atitude de forma determinada. Requer tudo de nós, e o melhor de nós. De cada um de nós. Para que não sucumbamos à barbárie. Meu medo, meu maior temor, é que sucumbamos todos à barbárie. E a barbárie não dorme no ponto. Precisamos estar alertas.
Em tempos passados, distantes na História, o termo “bárbaros” era utilizado para designar povos violentos e desconhecidos, vindos de longe para conquistar, destruir, matar, estuprar, pilhar aquilo que as outras culturas haviam levado séculos para construir. Isso mudou. Hoje, os bárbaros estão entre nós, moram ao lado, são semelhantes a nós e, o pior de tudo, muitas vezes, habitam nossas próprias almas em segredo, onde são alimentados com nossas raivas, com nossos ódios acumulados, com nossas intolerâncias, com nossa tendência ao pensamento autocentrado, com nossa vontadinha de passar a perna em todos os demais em benefício próprio, com a violência que vamos acalentando e deixando latente lá dentro de nossos íntimos. E, quando menos esperamos, na primeira oportunidade, o bárbaro vem para fora e se manifesta com toda a sua selvageria característica.
Foi assim no final de semana em Guarujá, no litoral paulista, quando uma multidão linchou e assassinou uma dona-de-casa inocente, acusada erradamente de ser uma sequestradora de crianças. Não precisou muito para que a barbárie se instalasse, camuflada de justiça, pelas mãos de uma turba de gente que se imaginava “do bem”. Linchar não é fazer justiça. Linchar é crime. É barbárie. Mesmo que a moça fosse culpada daquilo que a acusavam (e não era), o linchamento seguiria sendo o mesmo crime horroroso que foi.

Foi barbárie. Pura e simples barbárie. Precisamos resistir a ela. A barbárie não vem mais de além-mar em embarcações lotadas de vikings distantes. Ela está aqui ao lado. Ela está dentro. E, se não cuidarmos, ela planta sementes dentro de cada um de nós. Precisamos urgentemente resistir. Confesso que ando bastante preocupado.
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 8 de maio de 2014)

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