quarta-feira, 28 de maio de 2014

Para calar a sereia

A vítima, dessa vez, foi Loreley. Loreley (a pronúncia correta é “Lorelái”) é uma sereia muito famosa na Alemanha - personagem importante da mitologia nórdica -, que costuma viver nas águas do rio Reno. Entre as cidades de Sankt Goarshausen e Kaub, o Reno faz uma curva fechada ao redor de um penhasco e sempre foi muito comum as embarcações, ao longo dos séculos, baterem ali nas rochas e afundarem. Tudo por culpa de Loreley.
Essa sereia em específico, dizem os que já a avistaram (e são muitos os moradores da região que costumam vê-la, conforme relatam aos turistas que acorrem à região para passear de barco ao redor do penhasco batizado com o nome da ninfa), é muito bela. Suas doces formas femininas se confundem com a cauda de peixe, normalmente escondida sob a longuíssima cabeleira dourada que lhe envolve o corpo todo, e seu canto é arrebatador. É com ele que Loreley enfeitiça os timoneiros e capitães das embarcações, levando-os a perderem o controle de suas naus e naufragarem naquele perigoso trecho de um dos rios mais famosos da Europa. Diabruras típicas de sereias, como bem o sabem heróis como Ulisses e outros que conheceram seus encantos.
 Meus avós, em viagem à Europa na década de 1960, passearam pela região e se encantaram com a lenda. Entre os souvenires que trouxeram da longa turnê, constava uma miniatura da sereia esculpida em pedra, reprodução da estátua que de fato existe naquele ponto do Reno. O mimo sobreviveu décadas guardado na cristaleira de minha avó em Ijuí, ao lado de outras delicadas lembranças daquela viagem tão marcante. Anos atrás, após a partida de meus avós, que devem ter escutado cantos definitivos de outras sereias, coube a mim herdar a bela relíquia familiar. Desde então, a pequena Loreley guarda a seção de autores alemães na minha estante de livros.
Guardava, até ontem, quando eu, Godzilla que sou, dei-lhe um cotovelaço enquanto organizava a estante de livros, arremessando-a ao chão e decapitando sua singela cabeça de sereia. Loreley, que resistiu à viagem transatlântica na bagagem de meus avós, da Europa ao Brasil, e sobreviveu incólume sobre sua rocha ao passar das décadas, sucumbiu aos meus modos reptilianos em questão de segundos.

Claro, restituí a cabeça ao corpo com super bonder (não sem antes fixar a cabecinha loira em meu dedo indicador, por descuido, logo solucionado) e não contarei o ocorrido a ninguém (conto com a discrição de meus quatro leitores, todos conhecidos e que me devem favores). E, juntos, damos todos graças por eu não ter escolhido a profissão de arquiteto...
(Crônica publicada no jornal Pioneiro em 28 de maio de 2014)

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